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Dinheiro na cabeça, mente em alerta: o custo das finanças para o bem-estar emocional

  • 27 de jan.
  • 5 min de leitura

Problemas financeiros podem ser a causa ou potencializar condições como depressão, ansiedade e síndrome de burnout

 

Quando a conta corrente vive no limite, a cabeça naturalmente fica cheia de preocupações. Acontece que a angústia frequente e intensa ligada a questões econômicas pode levar a uma piora na saúde mental, um elo já apontado pela ciência. Uma revisão de 94 estudos, publicados entre 1987 e 2023 e abrangendo 24 países, mostrou uma associação direta entre as dificuldades financeiras e a degradação do estado emocional dos voluntários. A análise foi publicada no final de 2025 no periódico científico SSM – Mental Health.


A situação pode ficar ainda mais evidente no início do ano, quando as contas só se avolumam: IPVA, IPTU, material escolar e matrícula dos filhos, além de gastos com férias. Mas, afinal, como ter uma relação saudável com o dinheiro?


É válido lembrar que, no Brasil, a maioria da população enfrenta algum perrengue financeiro. Em janeiro do ano passado, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostrou que 76,1% das famílias tinham dívidas como cartão de crédito, empréstimos, financiamentos e carnês.

Mas não é preciso estar com o orçamento enxuto ou ter dívidas para ver o dinheiro atrapalhar a saúde mental. Mesmo quando as contas estão em ordem, o fato de viver preocupado com cifras e cálculos pode abrir a porta para desordens psicológicas.


A lista dos transtornos que podem dar as caras nesse contexto é grande. “Problemas financeiros estão fortemente associados a transtornos de ansiedade, depressão, estresse crônico e síndrome de burnout”, enumera Lucas Teixeira Menezes, psicólogo e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).


Ainda de acordo com Menezes, outras condições podem ser exacerbadas pela falta de recursos, a exemplo de quadros de insônia, abuso de álcool e outras substâncias, transtornos alimentares e sintomas psicossomáticos, como dor de cabeça, distúrbios gastrointestinais e hipertensão.


As tribulações não aparecem repentinamente. O professor e pequisador Ahmed Sameer El Khatib, que estuda finanças comportamentais e ansiedade financeira na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pontua que o impacto começa de forma silenciosa e progressiva. “O primeiro sinal quase sempre é a ocupação constante da mente com preocupações financeiras. A pessoa acorda pensando em contas, passa o dia ruminando números e dorme mal porque não consegue desligar o pensamento”, descreve o especialista.


Um exemplo é o do indivíduo que está empregado, mas passa o dia pensando em como pagar a fatura do cartão de crédito atrasada. Ou que fica ansioso cada vez que o celular vibra, com receio de que seja uma cobrança. Sinais como irritação exacerbada, discussões em casa por causa da conta bancária e erros por desatenção também indicam a piora do quadro mental.


“O cérebro interpreta a falta de dinheiro ou a dívida como uma ameaça à sobrevivência. Isso mantém o corpo em estado de alerta constante, elevando os níveis de cortisol e adrenalina”, explica o psicólogo Celso Sant’Ana, contador e mestre em Finanças Comportamentais, além de criador da consultoria Psicologia Financeira. À medida que esses dois hormônios ligados ao estresse disparam, perde-se a capacidade de planejar a longo prazo - como pensar na aposentadoria, por exemplo, se não é possível saber se o aluguel será pago?

 

Ignorar o dilema também atrapalha

Se pensar o tempo inteiro nos boletos atrapalha a vida e a saúde, fingir que o assunto não existe é igualmente prejudicial. “A pessoa para de abrir o aplicativo do banco, ignora e-mails de cobrança, deixa envelopes fechados sobre a mesa por semanas. Psicologicamente, essa é uma forma de autoproteção contra a ansiedade, mas costuma agravar o problema”, ressalta El Khatib.


“O dinheiro não é apenas matemática, não é uma commodity em si. É emoção, identidade, história de vida, experiências, exemplos. Resolver a situação começa pela coragem de olhar o problema”, orienta o pesquisador.

Segundo Sant’Ana, a solução para proteger a saúde mental não é parar de pensar em dinheiro, mas sim trocar a ruminação por ação estruturada, com ações que se baseiam em psicologia e educação financeira. “Reserve um ‘horário de finanças’ algumas vezes por semana para olhar as contas, negociar dívidas e planejar pagamentos. Fora desse horário, quando a mente começar a girar no assunto, anote a preocupação e diga a si mesmo: ‘Isso entra no próximo horário de finanças’”, ensina.


Para os economistas, é importante seguir o seguinte mantra: planejamento, transparência e limites claros. Na prática, vale listar quanto cada um da casa ganha e quanto é gasto, por exemplo. Isso já ajuda a ter uma sensação de controle e reduz a desorganização e a incerteza. Por outro lado, é proibido esconder gastos - mesmo que seja “só mais aquela comprinha”. Para resolver a situação, é necessário o empenho de todos os membros da família.


Somente assim será possível ter uma real noção da situação e traçar estratégias para aumentar a renda e reduzir gastos. Nesse processo, inclusive, pode-se descobrir que o cenário é grave, mas perfeitamente possível de ser contornado. Sant’Ana orienta definir passos simples e objetivos, como ligar para determinado credor para pedir renegociação, cortar um gasto específico e buscar uma renda extra em tal área.


Outra dica é não viver de aparências apenas para manter um status ou agradar terceiros, além de alinhar valores pessoais com o dinheiro. Nesse sentido, é preciso refletir sobre prioridades familiares. Por exemplo: no momento vale mais pagar uma escola de alto padrão para os filhos - e, para isso, trabalhar mais - ou colocá-los em um colégio de bairro, com mensalidade mais barata?

“Evitar comparações constantes com padrões irreais de consumo e construir metas financeiras possíveis ajudam a reduzir a ansiedade. Também é importante cultivar uma relação menos moralizada com o dinheiro, entendendo que dificuldades financeiras não definem caráter, competência ou valor pessoal”, salienta Menezes.

El Khatib reforça a necessidade de guardar dinheiro em uma reserva financeira para uma emergência (o valor vai depender da realidade de cada um). A fonte para essa poupança pode ser qualquer entrada extra - décimo terceiro salário, um “bico”, um bônus e também um valor da renda mensal. “Não é só um instrumento financeiro, é um poderoso tranquilizador emocional. Saber que tem um dinheiro guardado traz segurança e um conforto emocional, psíquico e cognitivo muito forte”, afirma.


“Pessoas com alguma reserva têm relatado menos medo de perder o emprego, de enfrentar imprevistos e até mesmo de ousar em procurar um outro emprego que lhe seja mais agradável, ainda que seja menos rentável”, acrescenta o pesquisador da Unifesp.


Embora a falta de recursos para arcar com o básico pese muito, isso não significa que quem está passando por algum aperto financeiro esteja fadado ao adoecimento. “Redes de apoio, políticas públicas, vínculos afetivos e acesso a cuidado psicológico podem funcionar como fatores de proteção importantes. Tratar o tema exige olhar individual e social ao mesmo tempo”, considera Menezes.


Nesse âmbito do cuidado, hábitos saudáveis, como manter uma alimentação equilibrada, dormir bem e praticar exercícios físicos podem ser aliados da mente. “Técnicas de regulação emocional (como respiração profunda e pausa consciente) reduzem o efeito do estresse financeiro no organismo, protegendo contra adoecimento”, acrescenta Sant’Ana.

 

 

Fonte: Estadão

Imagem: Freepik

 
 
 

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