Entre o diploma e a carreira: qual é o profissional que o mercado exige
- CeprevNews
- 3 de jun. de 2025
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Formação humanística e modelo pedagógico integral encurtam a distância entre universidade e mercado de trabalho
A fronteira entre os muros da universidade e as demandas do mercado de trabalho nunca foi tão tênue — e tão desafiadora. Se antes bastava dominar a técnica, hoje o profissional ideal precisa ser capaz de interpretar o mundo, tomar decisões com ética e atuar de forma colaborativa em ambientes em constante transformação. A pergunta que se impõe é: as faculdades estão preparadas para formar esse novo perfil?
Um estudo da consultoria McKinsey mostra que 87% das empresas já enfrentam lacunas de habilidades entre os profissionais e as demandas dos negócios. Nesse novo quadro, resiliência, pensamento crítico, criatividade e capacidade de aprendizado constante passaram a ser tão valorizados quanto o domínio técnico.
Para o investidor Ricardo Kanitz, sócio da Spectra Investments, há atributos básicos — como saber fazer contas e falar inglês —, mas o que realmente diferencia um profissional é a capacidade de refletir e formar opinião própria. “A grande maioria apenas reproduz o que leu nos jornais. Alguém que consiga processar a informação e criar uma visão crítica é um ativo raro no mercado”, afirma. Ele também destaca a importância da automotivação, sobretudo em empresas com estruturas mais enxutas. “Não tenho uma equipe de líderes e sublíderes para guiar cada passo. Preciso de gente que se movimente sozinha, que saiba aonde quer chegar.”
Faculdade como ponte para o futuro mercado de trabalho
Esse desalinhamento estrutural entre formação e mercado ajuda a explicar por que programas como o Conexão Mercado, promovido pela Faculdade Belavista, têm ganhado protagonismo. A iniciativa busca aproximar estudantes da realidade empresarial por meio de encontros com lideranças e executivos. Na edição de maio, o convidado foi Fernando Modé, CEO do Grupo Boticário.
Durante sua fala, Modé compartilhou episódios da própria trajetória e destacou a importância de atributos não ensinados em manuais. “Curiosidade é uma competência essencial. Quando dizemos sim para a vida, ela retribui”, afirmou o executivo. Ele também alertou: sustentar valores éticos pode ter custos no curto prazo, mas “é isso que constrói reputação e consistência ao longo do tempo”.
Segundo Milena Seabra, diretora da Belavista, o objetivo do encontro foi justamente inspirar os estudantes a enxergar a formação universitária como um processo integral. “O Conexão Mercado vem justamente para aproximar o aluno da realidade que ele vai viver. Trazemos grandes lideranças para compartilhar suas jornadas e, com isso, mostrar que o sucesso não se baseia apenas em diploma, mas em empatia, humildade, curiosidade e visão estratégica”, explica a diretora.
Kanitz também participou da iniciativa com os alunos da Belavista e ficou impressionado com os estudantes. “Era a primeira semana de aula e as perguntas que fizeram demonstraram uma maturidade rara. Fiquei perplexo com o nível das reflexões”, diz. Para ele, o valor de ações como essa vai além da técnica. “É como ler uma biografia ao vivo. Ver de perto os caminhos de vida de alguém bem-sucedido ajuda a entender que o sucesso é feito de acertos e erros — e aprender com isso é transformador.”
Da sala de aula ao mercado de trabalho: formação com visão humanística e espírito empreendedor
A Faculdade Belavista tem se destacado justamente por enfrentar esse descompasso entre formação e mercado. Com cursos de Direito e Economia, a proposta pedagógica da instituição está ancorada no Core Curriculum, um conjunto de disciplinas que perpassam toda a graduação. Inspirado em modelos internacionais, como o da Harvard University — que integra formação acadêmica, ética, liderança e empreendedorismo em seu Office of Career Services e nos Harvard Innovation Labs —, o currículo da Belavista promove o desenvolvimento de habilidades técnicas e humanas em igual medida.
Na dimensão humanística, os estudantes mergulham em temas como ética, filosofia política, literatura e antropologia. Já a trilha empreendedora inclui disciplinas de gestão de projetos, economia criativa, inovação e impacto das tecnologias. “Queremos formar juristas e economistas com profundo conhecimento do ser humano e da sociedade, capazes de tomar decisões conscientes. Para isso, o currículo oferece desde o início uma formação ética, filosófica e prática, conectada com os desafios reais”, afirma Milena.
Outro diferencial está no próprio processo seletivo. Passar no vestibular é apenas a primeira etapa. A instituição também busca identificar a afinidade do candidato com os valores que a sustentam. “O processo seletivo é a porta de entrada para encontrar talentos alinhados com a nossa proposta de valor. Queremos alunos dispostos a buscar excelência e comprometidos com um alto nível de exigência”, explica Milena. “Há uma etapa de vivência em que avaliamos argumentação, pensamento crítico, empatia e capacidade de formulação de ideias — tudo isso ajuda a garantir o alinhamento com o nosso projeto”, completa.
Entre o diploma e o futuro: o que as empresas esperam dos jovens profissionais
Kanitz vê com bons olhos esse modelo. “Estudei em uma universidade pública que me deu uma boa formação técnica, mas só fui entender o que era aprender a pensar quando estudei nos Estados Unidos, em Harvard. Lá, a aula era uma discussão sobre o que você leu e o que concluiu. Aqui, muitas vezes é só o professor ditando conteúdo.” Segundo ele, preparar os alunos para refletir, argumentar e questionar é essencial. “Isso forma pessoas com opinião própria — e é isso que o mercado precisa.”
As exigências desse novo perfil de colaborador, no entanto, nem sempre são acompanhadas por oportunidades de capacitação. O Fórum Econômico Mundial estima que seis em cada dez trabalhadores precisarão de requalificação até 2027, mas apenas metade deles tem acesso a formações adequadas.
“Mais do que se preparar para modismos como o metaverso ou a inteligência artificial, o jovem precisa de uma base sólida sobre ética, disciplina, propósito”, afirma Kanitz. “É isso que o ajuda a navegar mares turbulentos com firmeza.” Segundo ele, focar apenas o “tema da vez” pode ser um mau investimento de tempo. “Há 20 anos, era o Second Life. Depois, o metaverso. Agora é a IA. E amanhã será outra coisa. O que permanece são os fundamentos.”
A boa notícia é que as empresas estão dispostas a apostar em talentos que demonstrem potencial, mesmo que ainda estejam aprendendo. “O mercado é generoso com quem é verdadeiro e curioso”, diz Fábio Salomon, headhunter e mentor de carreiras, que também participou do programa Conexão Mercado. “Mais do que experiências passadas, o que pesa é a capacidade de aprender com elas — e de transformar essas vivências em valor.”
Nesse contexto, mais do que preparar profissionais para o mercado, trata-se de formar pessoas para o mundo — com visão crítica, adaptabilidade e propósito. Como resume Milena: “Nosso papel é contribuir para que cada aluno entenda quem é, de onde veio e que impacto pode causar na sociedade. Isso é o que constrói uma carreira significativa”.
Fonte: Estadão
Foto: Freepik






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