Quatro motivos pelos quais seu filho ou seu neto vão sofrer muito mais com a mudança do clima
- 4 de jun. de 2025
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Relatório sobre primeira infância alerta para os impactos na saúde e na educação das crianças de zero a 6 anos
Crianças do mundo todo nascidas em 2020 enfrentarão seis vezes mais ondas de calor e quase três vezes mais inundações e secas do que a geração dos anos 1960. Por causa disso, escolas e sistemas de saúde precisam já se preparar para esses impactos, que afetam em especial a primeira infância, mas perduram por toda a vida.
Esse é um dos alertas do relatório A primeira infância no centro do enfrentamento da crise climática, do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), divulgado nesta quinta-feira, 5. O grupo reúne o David Rockefeller Center for Latin America Studies da Universidade de Harvard, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, a Fundação Van Leer e o Insper.
Os impactos incluem perda de aprendizagem, doenças infecciosas e até mais mortes de crianças. “Os efeitos são devastadores para essa vida que está começando. E ainda o adulto e o idoso vão ter problemas para a vida toda por causa da exposição que sofreram na primeira infância”, diz a professora e chefe do departamento de Saúde Global e População de Harvard, Marcia Castro.
Cerca de 18 milhões de bebês e crianças de zero a 6 anos vivem no Brasil atualmente, o equivalente a 8,9% da população brasileira.
Veja a seguir os quatro principais impactos para as crianças pequenas:
Estresse térmico
As ondas de calor e o aumento de temperatura são especialmente prejudiciais para bebês e crianças pequenas. O estresse térmico é um calor intenso e prolongado que pode levar a exaustão, insolação e até falência de órgãos.
Marcia Castro explica que as crianças na primeira infância não suam como os adultos e não conseguem resfriar o corpo, o que pode levar a processos inflamatórios. “Esse aquecimento pode também atrapalhar o sono, o que causa problemas de desenvolvimento e até a ruptura de músculos”, completa.
Crianças que moram em áreas de precariedade habitacional, alta densidade e menos árvores são ainda mais suscetíveis.
Os pesquisadores recomendam que as escolas e creches tenham as chamadas zonas de resfriamento, com área verde e de sombra, mais ventilação ou ar condicionado.
Exposição à poluição
Márcia explica que a poluição também é mais prejudicial para os pequenos. “As partículas no ar ficam mais na parte de baixo da atmosfera, como eles são menores, são expostos a um volume maior. Além disso, eles respiram mais rápido que os adultos, também inspirando mais partículas”, afirma.
A exposição aos poluentes pode causar aumento de processos inflamatórios, problemas respiratórios, mais internações e também piora na saúde das grávidas, o que pode levar a partos prematuros e outras consequências no desenvolvimento dos bebês. Na vida adulta, eles têm mais riscos de doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade.
Prejuízos à aprendizagem
A destruição da própria escola é um dos impactos na educação da crise climática. Eventos extremos, como os alagamentos no Rio Grande do Sul, inviabilizam prédios escolares ou fizeram com que eles fossem transformados em abrigos, o que paralisa as aulas e pode levar a mais abandono de estudantes.
O relatório destaca que, em 2024, 1,1 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas suspensas no Brasil por causa de eventos climáticos, como alagamentos. As migrações das famílias por causa dos eventos extremos também são prejudiciais para a continuidade e acompanhamento dos estudos das crianças. “O deslocamento forçado resulta na ruptura dos vínculos escolares, especialmente entre as crianças mais novas, para as quais a escola representa também um espaço de proteção e socialização”, afirma o documento.
Além disso, as estruturas escolares já existentes são inadequadas e aumentam os riscos para os alunos. As pesquisas mostram que o calor extremo prejudica a capacidade de concentração e aprendizagem. Faltam áreas verdes em 43% das escolas de educação infantil das capitais, segundo pesquisa do Instituto Alana.
Entre as recomendações do relatório estão justamente a criação de zonas de resfriamento nas escolas, com mais vegetação, espaços com sombra, ventilação e ar condicionado. Principalmente porque muitas vezes as escolas são o único espaço nas grandes cidades em que as crianças podem ter contato com a natureza. “A exposição regular a espaços verdes estimula a atividade física, reduz o estresse, diminui o risco de alergias, fortalece as habilidades cognitivas e promove o vínculo com o meio ambiente”, afirma o relatório.
O relatório deixa claro ainda que as escolas e governos precisam estabelecer protocolos para continuar o atendimento logo após os desastres climáticos.
A crise climática também tem levado a perdas agrícolas, prejudicando a produção de alimentos básicos, como arroz e milho. Isso só piora o quadro atual, já grave, de insegurança alimentar. De acordo com dados do Unicef e da Organização Mundial de Saúde, 1 em 3 crianças de zero a 4 anos está nessa condição no Brasil - 5% com desnutrição crônica e 18% correm risco de sobrepeso. Uma das recomendações do relatório é o incentivo a programas de alimentação saudável nas escolas.
As migrações das famílias por causa dos eventos extremos, como inundações e secas, também aumentam o risco de desnutrição e dificultam o acesso à alimentação adequada. Mais de 43 milhões de crianças foram forçadas a saírem de casa por causa de desastres climáticos entre 2016 e 2021 no mundo.
E ainda projeções do Banco Mundial indicam que, até 2050, cerca de 216 milhões de pessoas poderão ser forçadas a migrar devido a condições ambientais insustentáveis - 40% delas, crianças.
Fonte: Estadão
Foto: Freepik






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