A dor de perder um bichinho: luto por um pet é tão intenso quanto por uma pessoa, mostra novo estudo
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O trabalho mostra também que parte das pessoas que perderam seus animais de estimação sofrem do "transtorno de luto prolongado", semelhante àqueles que perderam alguém próximo.

— Quando um pet vai embora, um pedaço do nosso coração vai junto — é assim que Júlia Lellis, de 28 anos, define a perda de sua gatinha, Dora. Júlia não está sozinha nesse tipo de luto.
De acordo com um estudo publicado na revista PLOS One, para muitas pessoas, o luto por um animal de estimação pode ser igual ou pior que o de um ente querido. De acordo com a pesquisa feita no Reino Unido com 975 adultos, para um em cada cinco participantes, perder seu animal de estimação foi pior do que perder uma pessoa querida.
O estudo mostra também que cerca de 7,5% das pessoas que perderam seus animais de estimação sofreram de "transtorno de luto prolongado", uma proporção semelhante àqueles que perderam um amigo próximo. Essa proporção ficou apenas ligeiramente abaixo da observada em pessoas que desenvolveram a condição após a morte dos avós (8,3%), de um irmão (8,9%) ou mesmo um cônjuge (9,1%). Apenas aqueles que perderam pais ou filhos apresentaram taxas significativamente mais elevadas do transtorno, de 11,2% e 21,3%, respectivamente.
Essa condição é definida como "sintomas de luto intensos e persistentes que não são apenas angustiantes por si só, mas também associados a problemas de funcionamento", com duração de 12 meses ou mais após a perda”. No entanto, atualmente, essa classificação inclui apenas perdas humanas.
Mas opara os pesquisadores da Universidade de Maynooth, na Irlanda, os critérios diagnósticos podem estar deixando de lado algo importante. O que mais importa não é quem morreu, mas a qualidade e o significado do relacionamento com o falecido.
Um dos principais fatores de risco para o transtorno do luto prolongado é a falta de apoio social após a perda. E isso é o que pessoas que perdem seus animais de estimação frequentemente enfrentam.
A psicóloga com foco no luto e mãe de pet Natália Nigro de Sá sentiu isso na pele.
— Eu e a minha esposa perdemos duas filhinhas, uma cachorrinha, que é a Lola, e a gatinha Frida. Foi bem dramático. Eu sempre trabalhei com luto, mas só que depois que perdi as duas senti na pele uma invalidação que eu conhecia só na teoria. Foi muito duro, porque percebi como realmente perder um pet pode ser solitário e muito pouco acolhido. As pessoas não entendem muito bem — conta Natália, que também é doutora em ciências pela USP.
De acordo com a psicóloga especializada em luto pet e comportamento humano Juliana Sato, o luto por um animal, entra na categoria de luto não reconhecido. — Isso quer dizer o quê? Que a sociedade não reconhece como um luto válido. Porque não enxerga e não valoriza o vínculo que a pessoa tem com o seu pet — diz a psicóloga. — A pessoa que vivencia esse luto tem uma grande probabilidade de não receber suporte. Muita gente acaba nem oferecendo condolências. Nem dizem: "Sinto muito pela sua perda”. E o fato de nem ouvir isso, faz com que a pessoa se sinta muito isolada. Muitas vezes, o próprio enlutado não reconhece o seu luto.
Foi essa falta de reconhecimento que levou Natália e sua esposa a criarem a Laika Funeral Pet, em São Paulo, que além do serviço de cremação e memorial, oferece também apoio psicológico aos tutores, que consiste em sessões de acolhimento e orientação psicológica e encontros em grupo.
— Percebi essa lacuna no cuidado com as famílias multiespécies de pessoas que perdem os pets. O nosso principal esforço está no cuidado do luto dessas famílias e no respeito com o corpinho do animal.
Desafios únicos
A morte de um animal de estimação traz desafios únicos. Os tutores podem ter que decidir sobre a eutanásia de seu bichinho, por exemplo. Para alguns, isso traz conforto ao acabar com o sofrimento do pet, mas não significa que seja uma decisão fácil. Para outros, é traumático e circunstâncias traumáticas são outro fator de risco para o transtorno de luto prolongado.
Júlia se deparou com esse dilema quando Dora ficou doente. Quando o estado de saúde da gatinha se deteriorou, a veterinária conversou com ela e seu noivo sobre essa possibilidade. Mas enquanto decidiam o que fazer, Dora faleceu.
— Esse tema, foi um dos mais difíceis para mim. Graças a Deus eu tive ajuda psicológica, o que me ajudou muito. Porque você se deparar com a possibilidade da morte na sua frente é muito delicado — diz. — A eutanásia, como eu vejo, é a decisão que você tem de não prolongar mais o sofrimento do animal, mas não é fácil.
Apoio é fundamental
A falta de apoio, da sociedade, das pessoas próximas e até mesmo do trabalho podem servir de gatilho para condições como ansiedade e até mesmo para o transtorno de luto prolongado. Felizmente, Júlia, que é HR business partner na MSD, teve bastante apoio, inclusive dos colegas de trabalho. Um dos benefícios da empresa aos funcionários é um dia de licença em caso de morte do pet.
— Fizemos muita questão de fazer uma despedida, dar um último adeus e seguir com o procedimento que escolhemos, que foi a cremação. Então, para mim, foi muito importante a oportunidade de fazer essa desconexão com o trabalho, sem ter que me preocupar. E eu tenho muita gratidão, pela minha gestão e pelo meu time, que me apoiou muito, porque um pet faz parte da nossa vida, faz parte da nossa família — conta.
Elisa Mendoza, diretora de RH da MSD Brasil, explica que a licença pela morte do pet começou a ser oferecida na companhia em 2022, após pesquisas de mercado e internas. O benefício está dentro de um guarda-chuva de outras coisas que a empresa oferece para os funcionários que têm pets, como desconto em produtos e a possibilidade de levar o animal de estimação para o escritório sempre que quiser ou que for necessário.
— É uma elegibilidade para todos os funcionários da nossa companhia. Tentamos ser congruentes nas coisas que oferecemos, entendendo nossos valores dentro da saúde humana, mas também animal. E pensamos muito nessa licença também porque damos muita relevância à saúde mental e emocional de nossos funcionários. Sabemos que na parte sentimental, um dia não faz nenhuma diferença. São coisas que só o tempo ajuda. Mas na parte administrativa e de se organizar, é muito útil — diz Mendoza.
A MSD não está sozinha nessa iniciativa. A Royal Canin, empresa de nutrição animal, também oferece uma licença ou luto pet de um dia. Outro fator que ajudou Júlia a passar pelo luto da perda de Dora foi o fato de já ter outro gatinho em casa, que chegou à família antes mesmo da gata adoecer. No entanto, muitas pessoas acabam optando pela decisão de adotar outro animal de estimação quando o que elas têm adoece ou então logo após sua partida e, segundo a psicóloga Juliana Sato, é preciso estar atento aos motivos por trás dessa decisão.
Muitas pessoas decidem pegar outro pet acreditando que ele vai substituir o que faleceu, por exemplo, e quando isso não acontece, a pessoa fica frustrada porque tem um animal, mas não é o que ela queria e não sabe o que fazer. — A pessoa se sente culpada porque está com outro bichinho, mas não consegue se vincular a ele. Agora tem pessoas que têm muito carinho, muito amor e entendem que esse afeto pode ser compartilhado com um novo pet. Então vai depender muito de como a pessoa lida com essas perdas. O que a gente não pode fazer é tentar substituir um por outro — pontua a especialista.
Idosos, pessoas que moram sozinhas e crianças podem sofrer ainda mais com a morte de um pet e precisam de muito apoio. No caso das crianças, Juliana recomenda ser sincero e contar que o que de fato aconteceu com o pet, em vez de dizer que ele virou uma estrelinha no céu.
— Explicar para a criança não vai traumatizá-la. Muito pelo contrário. É lógico que temos que ter todo um cuidado de acordo com a idade da criança. Mas é muito importante a criança vivenciar esse processo junto com a família e deixá-la participar dos rituais de despedida, escrevendo uma cartinha ou fazendo uma oração para o pet, por exemplo.
Mas quando o luto se torna um problema? Segundo Juliana, o luto saudável dura em torno de seis meses a um ano. — O que isso significa? Que a intensidade da dor, do luto agudo, vai diminuindo. Então, a pessoa retoma a vida dela, retoma as atividades, não para sua vida. Agora, se ela tiver prejuízo da própria vida, buscar um isolamento, passar a sentir sempre a mesma intensidade da dor e não ter rede de apoio, é importante, sim, ela buscar ajuda.
Entre as estratégias que ajudam a passar por esse momento de luto estão os rituais, como escrever um diário a respeito da vida do pet, um scrapbook do que você gostaria de falar para esse pet, fazer uma playlist de músicas que te lembram esse pet. Mas a mais importante, segundo Juliana, é falar sobre a experiência, sobre a dor, sobre a saudade.
— É importante porque isso ajuda muito também na elaboração do luto.
Fonte: O Globo
Imagem: Freepik






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