Ansiedade financeira: quando o dinheiro não sai da cabeça
- há 5 dias
- 3 min de leitura
Finanças podem provocar tensão, ruminação e sofrimento, independentemente da classe social

Você já deve ter passado por isto — ou conhece alguém que passou. No início do mês, ao olhar as contas, percebe que seus gastos superaram os ganhos. Surge a dúvida: será preciso fazer um resgate na aplicação, adiar um pagamento ou assumir a multa para ganhar tempo? A sensação é de aperto no peito, preocupação e tensão.
A Associação Americana de Psicologia mostra, há anos, que o dinheiro figura entre as principais fontes de estresse crônico. Pesquisas mais recentes apontam para um novo fenômeno específico, cada vez mais frequente: a ansiedade financeira. Trata-se de algo distinto dos transtornos de ansiedade mais conhecidos e da depressão.
Quem convive com esse quadro costuma apresentar taquicardia, alterações do sono e pensamentos ruminativos — é como se a cabeça ficasse presa na mesma preocupação, girando em torno do dinheiro o tempo todo. Há também uma sensação permanente de alerta e desconforto sempre que o assunto envolve finanças. Não é raro que essas pessoas passem a evitar olhar extratos, abrir faturas ou mesmo conversar sobre dinheiro.
Um aspecto importante é que a ansiedade financeira não respeita extratos bancários. Ela pode atingir tanto quem luta para fechar o mês quanto quem tem renda alta e patrimônio significativo, e, em tese, condições materiais para se sentir seguro. O que muda entre um grupo e outro não é a presença da ansiedade, mas a sua forma. Em um caso, o medo é não conseguir pagar; no outro, é perder, não sustentar ou não manter.
Vejo isso com frequência na minha clínica: mais dinheiro não significa, necessariamente, mais tranquilidade. Em outras palavras, o problema não está apenas na falta ou no excesso de dinheiro, mas na forma como ele passa a ser vivido como ameaça constante
Há ainda um paradoxo pouco intuitivo. A ansiedade financeira não melhora a relação com o dinheiro. Pelo contrário. Esse estado persistente de preocupação tende a prejudicar a tomada de decisões financeiras, segundo um estudo de 2020. Em alguns casos, leva a uma economia quase obsessiva, com pessoas deixando de investir até na própria saúde. Em outros, provoca o efeito oposto: gastos impulsivos e resgates precipitados de investimentos. Em ambos os extremos, o sofrimento é grande.
Por isso, lidar com a ansiedade financeira não se resume a fazer uso de planilhas de controle mais sofisticadas ou aplicações mais conservadoras. Educação financeira ajuda — e muito. Um estudo de 2023 apontou que pessoas com maior letramento financeiro tendem a cuidar melhor de suas contas bancárias, a planejar a aposentadoria e a agir de forma menos impulsiva. Mas isso, por si só, não resolve tudo.
O dinheiro também tem a ver com emoções. Há quem compre para melhorar a autoestima, aliviar a tristeza ou preencher um vazio. Funciona, nesses casos, de modo semelhante à comida, o álcool ou as drogas: alivia no curto prazo, mas não resolve os problemas de fundo.
Também é preciso reconhecer que nenhuma estratégia — nem mesmo a educação financeira — elimina totalmente a incerteza. As grandes crises econômicas já nos mostraram isso diversas vezes. Talvez um caminho saudável para lidar com a ansiedade financeira seja abandonar a ilusão de controle absoluto das coisas. O dinheiro organiza a vida, mas não a deixa imune ao imponderável.
A verdade é que dinheiro não se resume ao quanto se ganha ou ao que se tem guardado. A experiência de cada um de nós com ele é singular. A mesma quantia pode significar coisas totalmente diferentes para pessoas diferentes, com base nas escolhas que elas fizeram e nos desejos que têm para si e para seus familiares. Cuidar da ansiedade financeira passa, portanto, por planejamento, informação e, sobretudo, por uma relação mais consciente com os próprios projetos, expectativas e medos.
Por: Arthur Guerra
Fonte: O Globo
Imagem: Freepik






Comentários