Perfeccionismo: o preço oculto da busca pela excelência
- 11 de fev.
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Almejar padrões pessoais muito elevados de qualidade aumenta o risco de transtornos como ansiedade, depressão e burnout

Ser perfeccionista é, em geral, visto como um traço de personalidade... perfeito. Elogios não faltam para quem busca atingir padrões elevados de qualidade porque esse perfil é sinal de sucesso, seja em qual área for. Mas a contrapartida da gana pela excelência pode ter um preço cruel. Crises de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e burnout estão na lista de problemas de saúde mental que pegam vácuo no perfeccionismo.
“Não existe um perfeccionista que não sofra”, afirma categoricamente a psicóloga Marcela Mansur Alves, professora e pesquisadora do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Se o sofrimento não está visível para as pessoas à volta, não quer dizer que não esteja acontecendo, pois há muitos aspectos de sofrimento que são internalizantes.” E, se essa dor não está presente naquele momento, provavelmente estará em algum outro ponto da vida do perfeccionista, vaticina a psicóloga.
Começa por um critério pessoal de qualidade. Se a perfeição está nos olhos de quem vê, os olhos do perfeccionista são implacáveis. Caso não tenha atingido o resultado “A” que colocou para si, sua autocrítica pode ser voraz, já que seu valor enquanto pessoa está atrelado a esse resultado. “O perfeccionista entende que uma falha num trabalho é uma falha enquanto indivíduo, ou seja, ele entende que aquele erro faz dele um ser humano pior”, afirma Marcela.
Dessa dedução pode vir uma insegurança para pequenas coisas do dia a dia, escolhas consideradas até banais para a maioria das pessoas – a escolha de um lugar para fazer a festa de aniversário surpresa de um amigo, por exemplo. O temor de que alguém critique a opção pode lhe custar dores de estômago e crises de ansiedade. Afinal, para o perfeccionista, ou o lugar é perfeito ou é um desastre. Desaparece a gradação intermediária, o gris.
Tal escrutínio pode ter uma consequência paradoxal: a procrastinação. Colocar o sarrafo lá em cima não raro leva a pessoa à inação. “Por se cobrar demais, o perfeccionista muitas vezes paralisa”, diz a psicanalista Lúcia Nascimento, de São Paulo. “Já que não consegue fazer algo de forma perfeita, ele nem começa a atividade porque acha que vai fracassar, e tem medo de fracassar.”
Esse fenômeno, que especialistas chamam de ciclo do perfeccionismo e da procrastinação, atinge milhões de pessoas diariamente, de estudantes que adiam a entrega de trabalhos e profissionais que postergam projetos importantes a atletas que deixam de treinar ou artistas que evitam dar a primeira pincelada.
É relativamente comum também que o perfeccionista estenda essa expectativa exacerbada àqueles que o cercam. Querem que filhos, irmãos e companheiro sejam tão determinados a alcançar o ótimo quanto ele próprio. “Os familiares são uma extensão da pessoa perfeccionista e, assim sendo, também não podem errar”, afirma Marcela. Isso costuma impactar os relacionamentos porque é muito possível que o outro não corresponda a todas as expectativas de pessoa tão exigente.
Lúcia sentiu essa extensão na própria pele. “Minha mãe não aceitava uma letra feia”, ilustra. “A gente escrevia uma palavra num caderno, ela dizia que estava horrível, arrancava a página e mandava fazer de novo.” O perfeccionismo de alguma forma herdado acabou por acentuar sua autocrítica. “Por muito tempo, eu não fiz coisas que poderia ter feito por medo de falhar”, diz. Medo do fracasso, da crítica e do constrangimento é uma das réguas do perfeccionista.
Performance social
Outra consequência relativamente comum do perfeccionismo é a dificuldade de estabelecer intimidade genuína com outras pessoas. A apresentação social tende a ser controlada, filtrada, quase robotizada, para não transparecer vulnerabilidades de carne e osso.
Junte-se a isso a tradicional performance das plataformas para entender comportamentos opostos frente às redes sociais. “Como quer chegar a uma versão ideal de si para os outros, o perfeccionista pode gastar tanto tempo, energia e recursos financeiros para gravar vídeos, reels ou stories que acaba desengajando”, afirma Marcela. Para Lúcia, o efeito pode ser contrário. O mundo ideal das redes sociais tende a virar o cenário dos sonhos para o perfeccionista, que ali pode criar uma miríade de momentos instagramáveis em busca de mídia espontânea — até a primeira reação de um hater nos comentários...
Certos ambientes reais favorecem a criação e o desenvolvimento dessa personalidade. “Ambientes rígidos demais aumentam a probabilidade de uma criança ser perfeccionista”, diz Marcela. “Não uma rigidez apenas pelo excesso de regras, mas uma rigidez na compreensão do que é certo ou errado naquela atmosfera.” Exigir dos filhos notas 10 em todas as disciplinas ou comportamentos mais adultos que infanto-juvenis do adolescente seriam exemplos dessa inflexibilidade.
Ambientes caracterizados por negligência ou abuso emocionais também podem favorecer o desenvolvimento do perfeccionismo como um mecanismo de compensação. “No caso da negligência, a criança precisa sempre se provar sendo ‘certinha’, não dando trabalho algum, para conquistar a atenção da família”, elucida Marcela. Já em ambientes abusivos, ela pode desenvolver o perfeccionismo como estratégia de proteção. Se nunca falhar, não será agredida.
Lúcia resgata ambientes profissionais extremamente competitivos como um detonador da busca pela perfeição. “Para ter um bom emprego, você precisa conhecer ‘n’ coisas do trabalho e fora dele, além de ser empático, gentil, de alto astral e entregar um trabalho de excelência num período de tempo curtíssimo”, relata. “Quanto mais você entrega, mais o mundo cobra de você e mais você se cobra, mas em algum hora um desses pratos vai cair.” Ela viu de perto essas demandas quando trabalhou em uma empresa japonesa em São Paulo onde apenas ela e o office-boy eram brasileiros. Países orientais, como Japão e Coreia do Sul, são conhecidos pela busca perfeccionista e pela alta competitividade nas escolas e no ambiente corporativo.
Um relatório divulgado pelo Ministério do Bem-Estar Social japonês mostra que o número de suicídios entre estudantes do ensino médio atingiu um recorde histórico em 2025. O levantamento aponta que 532 estudantes se suicidaram em 2025, número mais alto desde que os registros começaram a ser feitos, em 1980. Entre esses, 352 estavam no ensino médio, 170 no ensino fundamental II e 10 no ensino fundamental I.
O governo associa esse quadro a problemas relacionados à escola, como notas baixas e dificuldade em decidir sobre o futuro, seguida por distúrbios de saúde mental, entre eles a depressão. Na Coreia do Sul, estudos mostram que aproximadamente 45% dos alunos do ensino médio na capital, Seul, sofrem de depressão devido ao estresse acadêmico, o que pode levar a ideações suicidas. O país tem a maior taxa de suicídio entre as 38 nações que formam a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Menos, um pouco menos
Pelo que já foi publicado cientificamente, Marcela diz que movimentos individuais sem acompanhamento profissional ajudam pouco na redução do perfeccionismo. A psicoterapia seria um atendimento mais direcionado, não apenas para o perfeccionismo em si, mas para questões associadas à depressão e à desesperança. “A proposta é trabalhar atividades que não visem ao desempenho, à métrica e a rankings, mas à liberação de emoções positivas, de prazer e de lazer.”
Mas é necessário, primeiro, se reconhecer como perfeccionista. Foi pensando nisso que o Laboratório de Avaliação e Intervenção na Saúde da UFMG, que Marcela coordena, lançou em 2024 a cartilha “Perfeccionismo em Perspectiva”, disponível online.
Lúcia também propõe a terapia para que a pessoa aceite o fato de não ter como chegar ao patamar autoimposto. “É quando a gente aprende a ser o perfeccionista saudável”, finaliza.
Fonte: Estadão
Imagem: Freepik






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